Falar sobre a  morte, convenhamos, não é um dos assuntos mais agradáveis. Apesar de ser a única certeza absoluta que temos durante toda a nossa existência, encarar o fim da vida humana ainda assusta e entristece a maioria das pessoas. Isso ocorre principalmente nas culturas e religiões ocidentais e judaico-cristãs.

Seria possível abordar a morte e os ritos funerários de uma forma leve, extremamente informativa, delicada, interessante e até bem humorada? A resposta é sim, e vem com um nome de sucesso na cultura pop atual: Caitlin Doughty. Talvez seja difícil imaginar como uma garota nascida na paradisíaca ilha havaiana O’ahu tenha começado a trabalhar em um crematório aos 22 anos.

Doughty é uma agente funerária que se tornou um sucesso retumbante no Youtube. Ela não parou por aí e se tornou autora de livros best sellers dedicados totalmente aos assuntos espinhosos da indústria da morte e do universo mortuário através de uma abordagem científica, instigante, animada e otimista. Como ela conseguiu essa proeza?

Ask a Mortician – a série que aborda positivamente os tabus da morte

Caitlin Doughty já era uma agente funerária licenciada há quatro anos quando iniciou seu projeto – um tanto quanto peculiar. Seu canal do Youtube Ask a Mortician (Pergunte a um agente funerário, em tradução livre), vem desde 2011 publicando vídeos sobre as mais variadas dúvidas e curiosidades acerca da morte, tradições funerárias ao redor do mundo, luto, arte fúnebre, rotinas de necrotério e até detalhes mais delicados como processos biológicos e naturais de  decomposição – tudo a gosto do espectador. 

Identidade visual jovem, bem humorada e roteiros que conseguem ser extremamente informativos, leves e irreverentes ao mesmo tempo. Assim são seus vídeos (sempre apresentados com um sorriso cativante), que somam centenas de milhares de visualizações e avaliações positivas.

Em dos episódios, Caitlin convidou especialistas para falar sobre os desafios da maquiagem mortuária em corpos muito prejudicados (como em casos de acidentes e doenças graves). O primeiro e tocante comentário deste vídeo demonstra a importância desse trabalho. 

Uma mulher contou como esses profissionais foram fundamentais para que sua tia tivesse a chance de realizar um velório menos traumático para seu filho, que foi baleado.  “A mãe dele viu o filho pela última vez de uma maneira que reconheceu seu rosto. Fiquei extremamente agradecida pelo trabalho habilidoso dos maquiadores, o que permitiu um adeus apropriado”, relatou a espectadora.

Estudos sérios

Vale lembrar que todo o trabalho de Caitlin Doughty é embasado em estudos sérios. Ela cursou História Medieval na Universidade de Chicago e se especializou em Cultura da Morte. Depois se formou em Ciências Mortuárias na Cypress College, na Califórnia, Estados Unidos, onde reside atualmente.

Reunindo suas experiências e saberes, a influencer e autora viajou o mundo para investigar de perto rituais funerários de diversas culturas, tornando-se uma especialista como poucos em sua área. Caitlin, com seu vasto conhecimento e vivência, é uma ativista pela humanização da morte e da indústria funerária, buscando transformações culturais positivas no universo funerário. 

Ela fundou o coletivo A Ordem da Boa Morte, que trabalha por um movimento de  aceitação mais positiva do óbito e seus desdobramentos. Estamos diante de uma verdadeira educadora sobre a morte.

Do Youtube para para a literatura

Se no Brasil estamos habituados aos funerais rápidos e aos ritos clássicos que incluem ornamentos como a coroa para velório e enterros mais reservados, um mergulho em seu livro Para toda Eternidade, lançado por aqui em junho de 2019 pela DarkSide Book, trará uma renovação de perspectivas sobre o trato da morte e dos mortos em outras realidades funerárias de países como México, Indonésia, Bolívia, Austrália, Japão, entre outros.

Listado entre os best sellers do The New York Times e ilustrado pelo quadrinista Landis Blair, a obra nos presenteia com uma profunda reflexão sobre a morte como a expressão máxima de uma cultura, principalmente quando comparada aos moldes da milionária indústria funerária ocidental.

Mas este não é o primeiro sucesso literário de Caitlin Doughty. Seu livro de estreia, Confissões do Crematório (2016, DarkSide Books) conta parte de sua rotina de trabalho e profundo aprendizado que recebeu no crematório que trabalhou na Califórnia. A narrativa está recheado de fatos reais, reflexões filosóficas, históricas e mitológicas que trazem uma visão totalmente diferente ampliada de tudo o que o senso comum imagina sobre este tipo de atividade.

Falando com as crianças

Com tamanho sucesso e audiência, Caitlin passou a receber diversas dúvidas vindas  seus espectadores e leitores, principalmente de crianças. Isso foi a faísca para a produção do seu terceiro livro Will my cat eat my eyeballs?, lançado nos Estados Unidos em setembro de 2019, ainda sem tradução para o português. 

Este brilhante trabalho, que foi ilustrado por Dianné Ruz, responde 35 perguntas surpreendentes, inocentes e até hilariantes feitas pelos seus fãs mais jovens. As respostas são igualmente certeiras e engraçadas para questionamentos inusitados como “Minha avó pode ter um funeral viking”? “E se o corpo de um astronauta fosse empurrado para fora de um ônibus espacial?”. 

Mas, principalmente, esta é uma obra que vai ajudar as crianças a aprenderem a não temer a morte como nós ainda fazemos. 

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