Costumo brincar com o trocadilho “viver de Arte, é viver de AR(te)”. Ser artista no Brasil (e no mundo) não é fácil. Fora da mídia, das artes “da moda” a missão é ainda mais utópica, quase um desafio gravitacional. A arte naif é absolutamente figurativa e simples, e apesar da falta malícia, regras técnicas, subjetividades, conceitualismos, está muito longe de ser desprovida de inteligência. Arte naif (ingênua, primitivista, se preferirem) não é arte “da moda”. Também não é do tipo fast-food, vendida por metro e nem pretende figurar nos points fashion ou conhecidos estabelecimentos comerciais. Este estilo requer do expectador apenas gosto pela cor, observação e sensibilidade – matéria prima dos artistas auto-didatas que as produzem – por isso é quase infantil, acessível aos olhos e a alma.

“É a arte que não precisa de bula para ser lida” – palavras do marchand e especialista neste estilo, o franco-belga radicado no Brasil Jacques Ardies. Este senhorculto e discreto mantém sua galeria na Vila Mariana ( www.ardies.com) e batalha há 30 anos por estabelecer a riqueza da arte naif brasileira tanto aqui quanto no mundo, aliás, arte que é mais valorizada e reconhecida no resto do mundo do que no país. Foi graças a ele e a uma das sócias e organizadoras da Cow Parade Brasil que fui convidada a pintar uma vaca “naif” para a parada de São Paulo 2010. Grata surpresa e diversão garantida!

Em meados de outubro de 2009 recebi a escultura em tamanho natural (como legítima paulistana, nem sabia que uma vaca normal era grande assim!). Foi paixão a primeira vista… Ela ocupava toda a minha sala de estar, era branca, pesada, feita de fibra de vidro e pedia, desesperadamente, para que eu a vestisse de naif dos chifres às patas. Amigos vinham visitá-la, espremiam-se entre as paredes e em cima do sofá, tentando o melhor ângulo pra registrar a inusitada hóspede. Aos poucos, ao longo de quase 30 dias e noites, ela foi sendo coberta por tinta e traços finos, delicados de puro naifismo…

Assim descrevo a obra e os convido para a viagem:
A vaca virou uma casa, de paredes com papel de parede cor de rosa, chão de madeira, móveis simples, quadros, estantes, livros de autores e amigos variados, mesa posta, brinquedos jogados, janela aberta.
De um lado a mãe chega com olhos curiosos (talvez tenha voltado para pegar sua bolsa? Talvez esteja brincando de achar as crianças que se escondem?). Com a porta que se abre, a cortina da janela voa do lado oposto, anunciando às crianças que a mãe acaba de chegar… Elas se escondem: a menina atrás do vaso, o menino atrás da estante. Olhos marotos esperam e apostam quem vai ser achado primeiro.


O bolo, o suco sobre a mesa esperam a união dos 3. O livro aberto, debaixo do abajur, aguarda a retomada da mãe, ao sentar na poltrona vermelha, com crianças atentas ao redor, fazendo até o preguiçoso gato sonhar com as aventuras guardadas na estória.

O lado de fora da vaca é o lado de dentro do lar. Aconchegante memória ou sonho de infância. Acolhedor como a vida deveria ser. O lado de dentro da vaca é o lado de fora do mundo, ainda imaginário, onde o jardim, o portão, as montanhas estendem a tranqüilidade da vida, da segurança da família e do amor.

Detalhes escondidos, uma chave jogada, brinquedos, a porcelana, o telefone mudo, histórias e quadros de pessoas (des)conhecidas.

A cidade, a vida de verdade, a material realidade, ficam nos quadros de prédios e casas, na rua, no posto, no expectador. A escultura é o ideal, mas o lado de fora da escultura é o real.

Enfim, a sugestão é que o expectador se misture com a obra, brinque de esconder e de encontrar. Desvende segredos, localize objetos e, por um instante, faça parte da brincadeira de achar (de se achar) entre o imaginário e a realidade, a arte e a vida.

Foi divertidíssimo hospedar e criar esta obra… Espero que achem e gostem da vaquinha “Cow-dê Você”! Ela está atualmente exposta no Portal do Morumbi, na Rua Marechal Hastinphilo de Moura, 355. Visitem! Ela está esperando por você!